sexta-feira, 31 de julho de 2009

Diretrizes para a redução de risco de dst/Aids - parte 2 de 2


Atividades de risco moderado

Estas práticas envolvem a possibilidade de machucados ou troca de fluidos que contenham hiv ou outras doenças sexualmente transmissíveis. 1) Chupada até o orgasmo. O sêmen pode conter altas concentrações de hiv que, se absorvido através de feridas na boca ou no estômago, acarreta risco de transmissão. 2) Contato entre boca e ânus. É possível que as fezes ou o reto contenham sangue contaminado com hiv. A prática apresenta também alto risco de transmissão de parasitas e infecções gastro-intestinais. 3) Contato entre boca e vagina. Secreções vaginais e sangue menstrual são fluidos que podem apresentar alta concentração de hiv, expondo o/a parceiro/a oral a contaminar-se através de lesões na boca ou no estômago. 4) Penetração do ânus com a mão (fisting). Estudos demonstram uma correlação direta entre esta prática e a infecção por hiv pelos dois parceiros. Esta associação pode dever-se ao uso concomitante de drogas leves, sangramentos, exposição a sêmen antes do fisting, ou relação anal com ejaculação. 5) Uso de brinquedos sexuais em comum. O risco desaparece se forem usadas camisinhas nos vibradores e consolos, retiradas e substituídas quando o brinquedo seja usado por outro/a parceiro/a. 6) Ingestão de urina. O hiv não é transmitido através da urina, mas outros agentes imunodepressores e infecções podem ser passados dessa maneira.


Atividades de alto risco

Foi demonstrado que estas práticas transmitem o hiv. 1) Relação anal passiva sem camisinha. Todos os estudos indicam ser esta a atividade de mais alto risco de transmissão de hiv. O tecido que recobre o reto é mais fino que o da vagina ou da boca, permitindo uma absorção mais fácil do vírus contido no sêmen ou líquido pré-ejaculatório. Um estudo aponta para a possibilidade de entrada do vírus diretamente nas células do tecido do reto, sem necessidade de sangramento. 2) Relação anal ativa sem camisinha. O risco para o parceiro que insere o pênis é menor do que para aquele em que o pênis é inserido. Ainda assim, há perigo significativo de transmissão, além do risco de infecção por outras doenças sexualmente transmissíveis. 3) Relação vaginal sem camisinha. Risco alto para ambos. Estudos indicam o surgimento de hiv mutantes mais adaptados à mucosa vaginal, capazes de penetrar na circulação mesmo sem a existência de cortes ou sangramento.



(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Diretrizes para a redução de risco de dst/Aids - parte 1 de 2

Atividades sem risco

A maioria destas atividades envolve apenas o contato de pele com pele, evitando assim possíveis contaminações por meio de sangue, sêmen e secreções vaginais. Presume-se que não haja cortes na pele. 1) Beijos sociais (secos). 2) Massagens, abraços. 3) Esfregação. 4) Práticas sado-masoquistas leves (sem machucados ou cortes). 5) Uso de seus próprios brinquedos sexuais (vibradores, consolos etc). 6) Masturbação mútua (feminina sem penetração ou masculina). Deve-se tomar cuidado para não se deixar o/a parceiro/a entrar em contato com ejaculação ou secreções vaginais. Secreções vaginais e seminais, assim como a saliva, não devem ser usados como lubrificantes.



Atividades de baixo risco

Nessas atividades é possível a troca de uma pequena quantidade de fluidos corporais ou há risco de a barreira protetora romper-se. 1) Relação vaginal ou anal com camisinha. Estudos demonstraram que o hiv não atravessa a camisinha. O risco existe de esta romper-se ou de haver transbordamento de sêmen para o ânus ou a vagina. O risco é diminuído se o pênis é retirado antes do orgasmo. 2) Chupada até antes do orgasmo. O fluido pré-ejaculatório pode conter hiv, apesar de ser possível que a saliva desative o vírus. A saliva também pode conter hiv em baixa quantidade. Aquele que insere o pênis deve avisar o/a parceiro/a quando estiver prestes a atingir o orgasmo, de modo a evitar que a outra pessoa tenha contato com uma grande quantidade de sêmen. Do mesmo modo, qualquer atividade que cause abrasão, ou possíveis feridas, no pênis ou na boca aumenta o risco. 3) Chupada com camisinha. Uma vez que o hiv não atravessa a camisinha, o risco desta prática é pequeno, a menos que a camisinha se rompa. 4) Beijo na boca. Estudos apontam ser tão baixa a concentração de hiv na saliva que o contato entre salivas apresenta pouco risco de transmissão. O risco aumenta se há feridas na boca ou gengivas que sangrem. 5) Contato entre boca e vagina ou boca e ânus com barreira de proteção (látex como o usado pelos dentistas, plástico de embrulho ou camisinha cortada e aberta na forma de um quadrado). Baixo risco quando o látex não é reutilizado, pois nesse caso pode-se virá-lo sem querer. 6) Penetração do ânus ou da vagina com a mão, com luva (fisting). Se a luva não rasga, não há perigo de transmissão do vírus. Há no entanto risco de ferir-se o reto, causando problemas como hemorragia ou perfuração dos intestinos.



(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Claudio responde!

Meu melhor amigo nunca namorava, até que um dia ele se abriu e disse que era gay. Tudo bem para mim, cada um na sua. Mas tenho medo que os outros descubram que ele é e pensem que eu também sou. Não quero me separar dele. Ele é um cara muito legal. O que eu faço?
(Adalberto, 17 anos)

Por que será que você tem medo de que os outros pensem que você é gay? Mesmo que pensem, você sabe que não é. Pode ficar tranqüilo, porque orientação sexual não passa. Nem você vai ser contaminado pela homossexualidade de seu amigo, nem vai contaminá-lo com a sua heterossexualidade.
É muito difícil ser julgado e condenado por um grupo. Se você tem receio do que possam falar de você, mesmo não sendo verdade, imagine o receio de seu amigo. Pense nele. Ensine seus amigos a serem menos fechados e irem aprendendo a ver que no mundo existem diferenças, e que todos podem se dar bem juntos. Como você bem diz, cada um na sua.


Todo gay morre de Aids?
(José, 14 anos)

Gays, assim como heterossexuais, morrem de doenças diversas, inclusive Aids. Muitas pessoas associam gays e Aids porque os primeiro casos identificados foram em pacientes que, coincidentemente, eram homossexuais. A mídia então rotulou a Aids de praga gay, o que foi muito ruim não só por ter aumentado o preconceito contra os homossexuais como por fazer com que a população heterossexual não se protegesse. Na verdade, nunca existiu grupo de risco. O que existiu - e existe - é prática de sexo com risco de contaminação.


Então lésbicas também pegam Aids?
(Malú, 14 anos)

Infelizmente, qualquer pessoa que faça sexo sem proteger-se pode pegar Aids. No caso de duas mulheres, uma pode contaminar a outra por meio dos fluidos vaginais, da menstruação, por uso em comum de seringas ou qualquer outro jeito em que os líquidos do corpo de uma entrem no corpo da outra. As próximas postagens falarão sobre comportamentos de risco.


(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)


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domingo, 26 de julho de 2009

Matéria no UOL sobre preconceito nas escolas

O canal de Educação do UOL publicou uma matéria com assutadores dados sobre preconceito em escolas. De acordo com o artigo, nas escolas públicas brasileiras, 87% da comunidade - sejam alunos, pais, professores ou servidores - tem algum grau de preconceito contra homossexuais. A matéria discorre sobre o efeito da homofobia nos alunos, que podem chegar até a abandonar os estudos por causa disso, e o despreparo das instituições para lidar com essas questões.

Você pode conferir a matéria neste link. Dentro dela, há links com outros textos sobre o assunto.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Claudio responde!

Meu namorado quis transar a três (ele, eu e mais uma mulher). Transei e gostei. Estamos namorando a três. Será que isso é muito errado?
(Marina, 19 anos)

Errado não está. As pessoas são livres para se vincular com quem tenham vontade, desde que seja consentido por todas as partes. Muitas pessoas já tentaram ter esse tipo de relacionamento. Na década de 60 e 70, o movimento hippie apregoava o amor livre e a abertura das relações. Mas não deu muito certo. A maioria das pessoas perceberam que não dava para rejeitar sentimentos como ciúme, fidelidade física e emocional, e que o desejo de ter um parceiro ou parceira exclusivo para amar era quase que natural. Para a maioria de nós, o amor é monogâmico e o desejo sexual é poligâmico. Uma relação a três tende a romper-se quando qualquer uma das partes sente estar recebendo pouca atenção de quem mais gosta. Buscar aumentar o nosso prazer sexual é bom, mas é necessário levar em conta o nosso bem-estar emocional.


Sou gay mas não sou afeminado. Ninguém sabe e todos pensam que eu sou garanhão. Sou o melhor do meu time de futebol e faço musculação. Gostaria de saber por que, toda vez que aparece um gay na televisão, sempre é um cara bandeiroso.
(Cláudio, 17 anos)

Você teria coragem de aparecer na televisão? Provavelmente não. A maioria dos gays que aparecem na TV, justamente por serem afeminados, já foram mais expostos a um reconhecimento do público e já se acostumaram com isso. Levar uma vida exposta num país onde a grande maioria é machista não é fácil, e você deve saber disso. Mas quando a pessoa consegue ser transparente e livre de julgamentos externos, com certeza é muito mais feliz. Como diz Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é“.



(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)


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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Homossexualidade não é doença e não pode ser mudada


"A Sociedade Americana de Psicologia, uma associação que congrega todos os psicólogos dos EUA, produziu um folheto em que divulga seu posicionamento a respeito da homossexualidade. Entre outras coisas, explica que 'a orientação sexual é diferente do comportamento sexual, porque se refere aos sentimentos e conceitos de si próprio. As pessoas podem ou não expressar a sua orientação sexual através do comportamento. [...]

'Em 1973, a Sociedade Americana de Psiquiatria confirmou a importância das pesquisas que estavam sendo realizadas ao remover o termo ‘homossexualidade’ do manual oficial que lista todos os distúrbios mentais e emocionais. Em 1975, a Sociedade Americana de Psicologia aprovou uma resolução em apoio àquela decisão. Ambas as associações solicitam que os profissionais de saúde mental colaborem para acabar com o estigma que algumas pessoas ainda associam à orientação homossexual. Desde que a homossexualidade deixou de ser classificada como doença mental, pesquisas adicionais feitas pelas duas associações vêm confirmando aquela decisão. [...]

'Em 1990, a Sociedade Americana de Psicologia tomou a posição oficial de que as terapias de conversão da homossexualidade para a heterossexualidade não funcionam e fazem mais mal do que bem, conforme apontam as evidências científicas. Alterar a orientação sexual de uma pessoa não é simplesmente uma questão de mudar o seu comportamento. Ela requereria uma alteração dos sentimentos emocionais, românticos e sexuais da pessoa, além de uma reestruturação do conceito de si própria e sua identidade social. Apesar de alguns profissionais de saúde mental tentarem aplicar terapias de conversão da orientação sexual, muitos outros questionam a ética de se desejar mudar uma característica que não é um distúrbio e tem uma grande importância para a identidade do indivíduo.”


(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Depoimento

Sérgio, 19 anos, de São Paulo

"Eu nunca tinha sentido nada por caras. Tive namoradas, transei a primeira vez com 14 anos, foi super legal, era uma menina mais velha do que eu, da escola. Foi numa festa, a gente bebeu e rolou, foi ótimo, me senti um homem naquele dia. Eu e meus amigos fazíamos a maior zona nas festas e na rua. Eu era briguento e confesso que uma vez a gente bateu num cara que era veadinho, ele estava andando perto de um parque e um amigo que já tinha carta deu a idéia. Nós fomos, eu me senti mal, mas tinha que dar uns socos porque senão ia ficar feio para o resto da turma.


Aquilo ficou na minha cabeça, me senti super mal, um dia fui tentar ver se encontrava com o carinha para pedir desculpas, tentei várias vezes mas não o encontrei. Depois de um ano, dei com ele sem querer na academia de ginástica, fiquei com vergonha, ele não me reconheceu. Mas eu tomei coragem, fui lá e me entreguei, pedi desculpas. O cara ficou mal mas sorriu, me desculpou e pediu para eu não contar para ninguém, porque ele não queria mais lembrar daquilo. Eu fui me aproximando dele, querendo ser amigo, e ele me rejeitou muito. Desisti. Depois de uns dois meses eu tive um sonho em que estava transando com ele, acordei melado e me sentindo mal, pensei que minha culpa estava me levando longe demais. Mas a idéia não me foi repugnante, eu lembro que foi gostoso, no sonho eu passava as mãos nas pernas dele, na bunda, beijava, era interessante, mas eu não me permiti sentir mais.

Até que, quando eu estava com 18 anos, fazendo cursinho para vestibular, encontrei um daqueles amigos que sempre faziam zona comigo. Ele estava diferente, aí se abriu comigo e disse que era gay! Eu caí das pernas, ele era o mais briguento e o mais comedor de meninas da turma! Ficamos amigos e um dia ele me levou numa boate gay. Me diverti a bessa, dancei com ele, foi muito estranho porque não me senti estranho. Voltei lá sozinho várias vezes, até que um dia quis experimentar beijar um homem. Beijei e gostei, foi muito diferente, mais forte, pareceu ter mais tesão. O cara queria transar comigo mas eu recusei, apesar de querer transar com ele também.

Na academia no dia seguinte, o cara em quem eu havia batido veio falar comigo, disse que tinha me visto na boate. Fiquei com vergonha, me sentindo meio culpado, e contei a ele como tinha chegado lá. Ele disse que, se não era a minha, era melhor eu parar de ir lá, porque senão iam começar a falar de mim. Disse que talvez eu estivesse sentindo culpa pelo que tinha acontecido no passado, que não precisava, que eu era um cara legal e podia esquecer tudo, já estava perdoado por ele. Eu disse a ele que não estava indo por culpa, era porque lá me sentia bem, achava os homens interessantes como as mulheres. Que tinha vontade de experimentar. Ele insistiu para que eu não fizesse isso com qualquer pessoa, ficou preocupado comigo.

Essa preocupação dele, esse carinho, o olhar e as lembranças do meu sonho foram me deixando maluco. Cada vez que eu o encontrava na academia, sentia meu coração bater, meu corpo chamar o dele. Percebia que ele também sentia algo, mas fugia. Até que, um mês depois, não agüentei e o convidei para ir em casa. Não teria ninguém lá, meus pais tinham ido viajar. Ele foi meio com medo. Chegamos em casa e parecia a primeira vez que eu estava com alguém, minha fala se engasgava, meu coração batia, e minha cabeça girava, e eu me perguntando ao mesmo tempo: cara você é louco? Você pirou? O que aconteceu, você virou veado? A única resposta que vinha na minha cabeça era o meu desejo, maior do que tudo.

Dei um beijo nele e senti como se meu corpo saísse do ar, era um misto de prazer e medo do que iria acontecer comigo depois daquilo. Transamos e foi fantástico. Foi muito melhor do que no meu sonho. Não tive nojo, não tive espanto, tive foi o maior prazer que eu podia imaginar. Continuamos a nos encontrar, e estava tudo bem, até que uma ex-namorada me ligou. Eu gostava muito dela. Fiquei maluco, queria vê-la e não sabia se iria conseguir. Isso não seria traição? Eu precisava ter certeza. Fui, estava nervoso, mas transamos e a transa foi fantástica também.

Parei, pensei, e percebi que gostava de transar com pessoas, que não importava o sexo, meu corpo respondia aos dois. Percebi que gostava mais do Felipe do que da minha namorada, e optei por ficar namorando com ele. Acho que minha vida vai ser assim, irei para quem meu coração escolher. Estou feliz com o Felipe, mas não sei se ele vai ser a pessoa da minha vida. Tenho 19 anos e sei que vou viver muitas coisas. Fico feliz de ter percebido que posso me relacionar com qualquer pessoa. Não tenho medo de mim, me sinto mais forte e mais homem".

(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Claudio responde!

Ninguém me entende, gosto de fazer sexo com meninos e meninas.
(Andréia, 17 anos)

A maioria das pessoas tem essa dificuldade porque o desejo sexual delas é orientado para um único gênero. Na verdade, a maioria das pessoas gostaria que o mundo fosse exclusivamente heterossexual, mas é obrigada a constatar que existe a homossexualidade. Tentam então incansavelmente descobrir formas de segregar os homossexuais, para que não haja dúvidas sobre quem é quem.
A bissexualidade é ainda mais difícil de ser entendida por estas pessoas porque parece ser uma mistura de homo e heterossexualidade, comprovando a teoria maior de que a orientação sexual pode se manifestar por vários caminhos e que existe mais de uma possibilidade de relacionamentos afetivo-sexuais. Importante é você entender o seu desejo e deixar que ele siga o seu curso, que para você é o seu natural.



Entendo meus amigos héteros me rejeitarem por eu ser bissexual, mas não entendo a rejeição de meus amigos gays.
(Jobar, 19 anos)

Seus amigos gays o rejeitam pelo mesmo motivo que os héteros. O fato de também sofrerem discriminação muitas vezes não os transformam em seres capazes de entender, e por conseqüência eliminar, os preconceitos contra as diversas formas de manifestação sexual. Para livrar-se de preconceitos é necessário ter informações e estar tranqüilo com a sua verdade. Você vai acabar encontrando pessoas que o entenderão e essas, independente de serem hétero ou homossexuais, serão as que já estão tranqüilas com a sua orientação sexual.


(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)


Quer fazer alguma pergunta ao Claudio? Mande-a para picazio.c@gmail.com.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sobre o preconceito - parte 2 de 2

"Existem também pessoas que se defendem de homossexuais porque pensam, erroneamente, que os homossexuais são héteros frustrados, por algum motivo. Isso é uma outra crença enganosa. Homossexuais não são héteros frustrados, são pessoas que se realizam afetiva e sexualmente com pessoas do mesmo sexo. Meninos e meninas homossexuais sofrem muito com o preconceito, principalmente na adolescência, quando têm que aprender a lidar com o seu próprio. Eles também receberam uma carga de informações desqualificativas a respeito da homossexualidade e, quando se vêem homossexuais, acreditam estar condenados a ser tudo o que ouviram falar de ruim sobre 'veados' e 'sapatonas'. Aos poucos, vão formando um conceito real e pessoal da sua homossexualidade.

Livrar-se dos preconceitos é trabalhoso para homo e heterossexuais, porque obriga cada um a olhar para seus desejos, muitas vezes guardados secretamente. Mas no fim esse trabalho tem sempre um final feliz, porque todos, héteros, bi e homossexuais, podem ficar tranqüilos com suas orientações sexuais.
O importante é não ficar preso aos preconceitos que nossos pais, amigos e a mídia ensinaram e mostrar para nós mesmos que somos capazes de formar novas idéias, de enriquecer-nos com conhecimentos. Criar novos conceitos é uma atitude de evolução".


(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Sobre o preconceito - parte 1 de 2

"Preconceito, todos têm em relação a alguma coisa. Como a palavra diz, trata-se de um conceito, um julgamento, feito antes de se entrar em contato com o fato. É sempre preconceito falarmos de um grupo como um todo em vez de sobre as ações de indivíduos que já conhecemos. Por exemplo, é preconceito dizer que os índios não gostam de trabalhar. Não é preconceito dizer que o Acauã, um índio que você já conhece pessoalmente, não gosta de trabalhar, se você já constatou que isso é verdade.

São muitos os preconceitos existentes em relação à sexualidade. Talvez o mais falado e de difícil digestão para a maioria das pessoas seja o preconceito contra a homossexualidade, tanto masculina quanto feminina. Recebemos desde cedo uma carga de valores desqualificativos em relação às pessoas com essa orientação, o que faz com que, muitas vezes, acabemos repetindo os comportamentos de rechaço para nos distanciarmos de algo que não queremos para nós. Todos desejam ser respeitados e aceitos pelo mundo. Ninguém gosta de sentir-se alvo dos valores desqualificativos que são atribuídos, sem razão alguma, aos homossexuais.

Em geral, quem tem muito preconceito está se defendendo de alguma coisa de que tem medo. E se uma pessoa teme tanto algo, é porque, de alguma forma, aquilo pode estar dentro dela. Uma pessoa tranqüila com a sua orientação sexual não precisa do preconceito para se defender, porque sabe que nada irá atacá-la e nem vai surgir nada novo de repente. Ela já sabe do que gosta e deseja.

Muitos heterossexuais são amigos íntimos de gays e lésbicas porque sabem que estes não os ameaçam em nada. Têm claro para si de que seu desejo é orientado para uma pessoa do sexo oposto. Estes são denominados de simpatizantes pelos homossexuais, porque estão resolvidos e tranqüilos com seu desejo."

(...)


(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Claudio responde!

Homossexualidade é opção?
(Marina, 18 anos)

As pessoas dizem que é, mas isso não é verdade. O termo opção é muito utilizado principalmente por pessoas que dizem não ter preconceitos, querendo justificar as escolhas de gays e lésbicas. Mas nenhum homossexual sente que optou por esse desejo, assim como os héteros não optaram pelo seu. O que alguns homossexuais podem dizer é que optaram por viver o seu desejo, mas não que o escolheram.
Opção implica uma escolha. Para que existisse uma escolha, seria necessário que a pessoa sentisse um desejo afetivo-sexual tanto por homens quanto por mulheres, na mesma intensidade, e aí decidisse por quem iria se interessar. Não é isso o que acontece, a não ser em alguns casos denominados bissexuais Os homossexuais, assim como o heterossexuais, não optam pelo caminho de seu desejo, mas descobrem, sentem, reconhecem para onde a energia afetiva sexual os leva. Hoje não se diz mais opção mas sim de orientação afetivo-sexual.


Fazia troca-troca quando era pequeno e gostava. Às vezes, lembro disso. Tenho uma namorada e a gente transa legal. Será que sou bissexual?
(Alfredo, 18 anos)

Fazer troca-troca é uma brincadeira erótica muito comum na infância, principalmente entre os meninos. É uma forma de experimentar o corpo e as sensações que ele produz. Diz-se que é uma brincadeira porque na cabeça da criança não existe ainda o jorro de configurações sexuais que aparecem quando ela se torna adolescente ou adulta. A intenção é de aprender papéis novos e imitar os adultos.
Ter feito troca-troca não significa que você irá se descobrir homossexual quando adulto, mesmo porque muitos homossexuais não fizeram essa brincadeira quando crianças. Lembrar desses fatos pode significar simplesmente memórias gostosas, como outras que devem vir à sua mente. Você diz ter uma namorada e que a relação é legal. Você deve estar então tranqüilo a respeito de seu desejo sexual em relação às mulheres, e em relação aos homens, se for só uma lembrança, não diria que você é bissexual. Agora, se você sente também uma atração hoje por homens e seu desejo também é de tê-los como parceiros, poderíamos dizer que sua orientação sexual é bissexual.


(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Depoimento

Tatiana, 23 anos, de Joinville

"Casei antes da maioridade, com 17 anos, tive que ser emancipada. O Sérgio era uma pessoa que eu conhecia desde os 13 anos e namorava fazia uns dois anos. Eu realmente gostava dele e foi tudo ótimo, excelente. Ele era a grande paixão da minha vida. O casamento durou três meses. Um dia ele viajou e eu fiquei sozinha. Resolvi ir para a casa de praia que ele tinha em Porto Feliz, mas quando cheguei dei de cara com o Sérgio e o melhor amigo dele, que também era meu amigo. Os dois estavam dormindo, peladinhos. Foi péssimo. Eles levantaram e vieram com uma conversa 'Não é nada do que você está pensando'.

Voltei para casa e anulamos o casamento como se nada tivesse acontecido. Ele é de uma família muito rica, a mãe nunca iria aceitar que ele é gay, não dava para contar. Ele não tinha cara de gay, andava sempre vestido como executivo, eu nunca tinha percebido nada. Depois da anulação, ele foi morar junto com o Júlio.

Me senti um lixo, fiquei um tempo sozinha. Aí entrei na faculdade de medicina e fiquei amiga de uma mulher mais velha. Ela morava perto da minha casa, íamos juntas e fazíamos dupla no laboratório. Ela tinha um namorado, que eu conhecia. Um dia a gente foi estudar na casa dela e fiquei no quarto esperando enquanto ela tomava banho. Quando voltou, começou com muitos carinhos e beijinhos e me convidou para tomar banho com ela. Acabamos ficando juntas e tivemos um caso por um bom tempo. Até que ela engravidou do namorado, casou-se e me convidou para madrinha.

Fui encontrar o Sérgio, que tinha se mudado para o Rio. Ele continuava casado com o Júlio, mas sempre que podia eu ficava junto com ele. Eu gosto muito dele. Na mesma faculdade, quando estava passando por um ciclo prático em pediatria fui atacada pela chefe do hospital, que me dispensou do plantão e me levou para a casa dela. Foi um ataque legal, desses que dá gosto. A gente começou a namorar de ficar noiva e usar anel. Eu passava todos os finais de semana na casa dela e dormia lá praticamente toda noite. Ela não se preocupava em esconder de ninguém, era emocionante. Onde ela ia, me arrastava. Um pessoal olhava meio torto, fazia comentários, mas ela era assumidona, com um pique 'ela está comigo e está comigo'. Fiquei dois anos com ela. Não era apaixonadíssima mas gostava, ela me fazia sentir muito para cima.

Até que uma colega começou a me chamar a atenção de um jeito diferente, como eu não tinha sentido nem pelo Sérgio. Eu só ficava olhando, não sabia qual era a dela. Por força do destino, fui dar plantão em um hospital com ela. Era próximo do Natal, a gente trocou uns presentinhos. Ela fez uma revelação: estava namorando outra mulher, que eu conhecia e de quem já não gostava. Comecei a ver uma luz no final do túnel.

O relacionamento dela com a outra entrou em crise e a brecha para mim começou a ficar maior. Eu estava sempre ali, no papel consolador. A gente começou a sair mais, ficava conversando dentro do carro, até que um dia quis dar um beijo. Ela disse não, mas na hora da despedida me beijou rápido na boca. Outro dia a gente estava no carro perto da casa dela (imagine se eu não tivesse carro, não ia desencantar nunca), e acabamos nos beijando e ficando juntas. O fusquinha ficou todo embaçado.

Depois de um tempo, trocamos o carro pelos motéis. Hoje, tudo o que eu sinto por ela é diferente, quero conversar a toda hora, sobre tudo. Desde que começamos o relacionamento, parei de ficar com o Sérgio, os outros todos perderam a graça. O que eu sinto não é nem paixão, é amor".

(Depoimento do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Claudio responde!

Eu entendo o que dois homens podem fazer numa cama, mas não entendo as mulheres. O que elas fazem, será que elas são mal cantadas?
(Fábio, 19 anos)

Mulheres sentem atração por outras mulheres porque é esta a sua orientação sexual, não porque tiveram experiências ruins ou pouco satisfatórias com homens. Trata-se de um desejo interior, com pouca ligação com a experiência. Diz a lenda, no entanto, que o sexo entre mulheres é o melhor que existe, justamente porque não existe a urgência de penetrar e ejacular. Mulheres costumam ser mais carinhosas, passar muito mais tempo se beijando e alisando, e, na hora h, podem chegar a penetrar a companheira com a mão inteira se ela quiser. Além disso, as mulheres têm a vantagem de poder atingir orgasmos múltiplos, ou seja, não perdem a ereção logo após o gozo. É muito difícil pensar em uma relação sexual satisfatória sem a presença do pênis, mas isso não só é possível como pode em alguns casos dar ate mais prazer.


Porque as meninas podem dar beijo uma nas outras, sair de mão dadas sem virar sapatão? Os meninos, se fizerem isso, vão virar veado?
(Victor, 14 anos)

Em primeiro lugar, ninguém “vira veado". O que ocorre é que a pessoa descobre o seu desejo por uma pessoa do mesmo sexo. Existe um mito de que a afetividade é a causa da homossexualidade. Não é. Homens heterossexuais podem se abraçar e beijar o quanto quiserem que não vão virar homossexuais, como você bem disse, as mulheres são o maior exemplo disso. Há também uma crença completamente errônea de que todos os homossexuais são pessoas afetivas e sensíveis. Tem muito gay por aí que não é nada disso. A sociedade cobra do homem uma postura dura e insensível, definindo isso como masculinidade, mas saiba que a afetividade e o carinho não são determinantes para uma orientação homossexual, e ajudam todo mundo a levar uma vida mais feliz.

(Do livro Diferentes Desejos: Adolescentes homo, bi e heterossexuais.)


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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Bissexualidade também existe

"A bissexualidade é, das orientações sexuais, a que mais polêmica causa. Geralmente, a pessoa é interpretada pelas outras como não-resolvida, “em cima do muro”, etc. Os grupos homossexuais excluem os bissexuais, e os héteros não os compreendem. A rejeição vem de todos os lados. Em suas relações afetivas, quando é declarada essa orientação, os pares se desesperam porque não sabem quem são os “competidores”, de quem devem ter ciúmes, e temem não ter como lutar pela posse de seu amado, porque não sabem como satisfazê-lo.

Se o homossexual é visto como um ser extremamente sexualizado, o bissexual é tido como duas vezes mais. Homens e mulheres bissexuais são tratados como se não tivessem capacidade afetiva para uma relação amorosa fixa. Muita gente acredita, erroneamente, que estas pessoas estarão sempre sexualmente insatisfeitas se tiverem somente um parceiro. Na verdade, o bissexual sente desejo afetivo-sexual por ambos os sexos e sente-se satisfeito com qualquer um deles, mas não precisa se relacionar com duas pessoas ao mesmo tempo.

(...)

É preciso aqui distinguirmos a prática da orientação sexual. O que encontramos com freqüência são pessoas com práticas sexuais aleatórias, ou seja, pessoas que têm relações sexuais – mas não amorosas – com ambos os sexos. Fazer sexo com uma pessoa não significa que se tenha desejo sempre por aquele sexo. Um heterossexual que experimente transar com um gay não se torna bissexual por causa disso, a menos que tenha sempre esse desejo. Homossexuais que experimentam o sexo hétero também não se transformam em bissexuais. Prática sexual todos podem ter com qualquer um, independentemente da orientação sexual. O bissexual dá um conteúdo diferente a esses contatos, carregando-os de sentimentos, vínculos, e envolvimentos emocionais."

(...)

Do livro Diferentes Desejos: adolescentes homo, bi e heterossexuais.